O papel das associações empresariais não é comentar a realidade económica, é transformá-la

Durante demasiado tempo, muitas associações empresariais ficaram presas a um modelo que já não respondia às necessidades das empresas: eventos repetidos, comunicados de circunstância e pouca presença no terreno. Perante isto, a pergunta que muitos empresários fazem é legítima: “Em que é que isto melhora a vida da minha empresa?” A verdade é simples: uma associação que não acrescenta valor torna-se apenas mais uma sigla no panorama institucional.
No NERPOR, no Alto Alentejo, esta realidade sente-se de forma ainda mais evidente. Num território com menos densidade empresarial, maiores distâncias e desafios estruturais profundos, cada minuto de um empresário conta. Quem está a tentar manter uma fábrica, uma oficina ou um comércio aberto não procura discursos: procura soluções. Se uma reunião não se traduz em apoio concreto, dificilmente haverá segunda oportunidade.
Quando assumimos a presidência do NERPOR, a primeira prioridade não foi criar slogans, mas devolver solidez à casa: pôr as contas em ordem, clarificar processos, corrigir falhas e recuperar confiança. Só uma associação organizada, séria e previsível pode olhar uma empresa nos olhos e dizer: “Hoje vale a pena voltar.”
O nosso papel não é comentar a realidade económica, é transformá-la. Isso faz-se com proximidade e utilidade diária: ajudar uma empresa a resolver um problema com o banco ou com a administração pública; apoiar candidaturas a investimento ou processos de reestruturação; promover cooperação entre empresas que isoladamente não teriam escala; criar espaços de diálogo entre agentes que raramente se sentam à mesma mesa — autarquias, serviços públicos, universidades e tecido empresarial.
Mas faz-se também com visão estratégica. No Alto Alentejo, uma das chaves é o Corredor Sudoeste Ibérico. Não defendemos apenas uma infraestrutura de passagem, que acelere fluxos entre portos e plataformas logísticas ignorando o interior. Defendemos um corredor que traga indústria, logística, serviços avançados e emprego qualificado para Portalegre, Elvas, Campo Maior e para toda a região. Se não estivermos presentes onde estas decisões se constroem, outros decidirão por nós.
É isto que esperamos das associações empresariais regionais em todo o país: que deixem de ser observadoras e passem a ser atores. Que falem menos de intenções e mais de resultados: empresas que se mantiveram abertas, investimentos concretizados, jovens que ficaram porque viram futuro na sua terra. No final do dia, é este impacto real que justifica a existência de cada uma das nossas associações.
Tiago Braga
Artigo que escrevi para a Revista Network – AERLIS