Imigração, a peça que falta no interior

O interior do país discute-se muitas vezes em tom de lamento: a desertificação, o envelhecimento da população, a dificuldade em manter serviços e negócios ativos. Mas, em vez de reconhecer as soluções possíveis, persiste-se no diagnóstico. Uma dessas soluções já está diante de nós, a imigração.
Para alguns, a chegada de imigrantes desperta receios de insegurança, de perda de identidade ou de sobrecarga nos apoios sociais. Para outros, representa simplesmente a realidade: sem mão-de-obra estrangeira, muitos setores do interior, da agricultura à construção, da restauração à indústria transformadora, não teriam condições de continuar a funcionar.
A verdade é que não há um caminho único. O discurso político tende a oscilar entre dois extremos: a visão de portas abertas sem reservas ou a proposta de fronteiras fechadas e políticas restritivas. No entanto, a vida real, no interior, obriga a outro olhar. Aqui não se trata de gerir excesso de população, mas de lidar com a sua escassez.
Sem imigrantes, muitas empresas do interior fechariam ou veriam a sua atividade drasticamente reduzida. É legítimo perguntar: como revitalizar a economia destes territórios sem recorrer a quem quer cá viver e trabalhar?
Mas a imigração não é apenas uma questão económica. Esta semana, o Tribunal Constitucional recordou-o ao chumbar a proposta que impunha um período de dois anos até ao reagrupamento familiar. O Tribunal considerou que tal medida violaria direitos fundamentais. E bem. Porque ninguém se integra verdadeiramente se não tiver consigo a sua família. A fixação de imigrantes no interior depende tanto da oportunidade de trabalho como da estabilidade afetiva e social. Sem uma política de reagrupamento familiar célere e justa, a imigração arrisca-se a ser apenas um recurso temporário, e não uma aposta de futuro.
É aqui que o debate político revela uma falha grave. Fala-se de números, de quotas, de setores que precisam de trabalhadores. Esquece-se que estamos a lidar com pessoas, com vidas que se cruzam com as nossas. Reduzir a imigração a estatísticas é um erro. Não se trata apenas de preencher vagas de emprego, mas de construir comunidades vivas e coesas, capazes de gerar valor económico e também humano.
Portugal, país de emigrantes durante séculos, sabe bem o que significa procurar futuro noutra terra. Hoje, quando outros nos procuram, não podemos ignorar que o interior precisa deles tanto quanto eles precisam de Portugal. A imigração não é apenas uma resposta demográfica, é também um fator de regeneração económica e humana, capaz de devolver competitividade e vida a territórios que, sem ela, correm o risco de definhar.
A questão decisiva não é se queremos imigrantes no interior. A questão é se temos coragem para assumir que o futuro destes territórios depende deles e se estamos preparados para transformar esse desafio numa estratégia nacional.
Tiago Braga
Nota: Na fotografia portugueses emigrantes na Alemanha nos anos 60.