Empreender fora da capital

Não há forma suave de o dizer, estamos a crescer torto. E, se não corrigirmos o rumo, vamos pagar esse desequilíbrio com estagnação, desigualdade e perda de soberania económica.
Durante demasiado tempo, fomos levados a acreditar que só se empreende com sucesso onde há metro, coworks e pitch decks em inglês. Mas, e resto do país? É bonito para passar férias, tirar fotografias e falar em discursos de campanha. Mas a verdade é simples, o futuro de Portugal não se constrói só na capital.
Fora de Lisboa também existe talento e criatividade. O que falta, na maioria das vezes, é a vontade política, investimento estratégico e coragem para agir contra décadas de centralismo e falta de planeamento.
Empreender no interior não é por si só romântico, mas sim exigente. A falta de infraestruturas, a fuga de jovens qualificados e a dificuldade de acesso ao financiamento colocam desafios sérios. Mas são esses mesmos desafios que tornam o território fértil para quem pensa com visão e age com ambição.
Há espaço, há recursos, há comunidades que precisam de soluções e empresas que as tragam. E há, também, um país inteiro à espera de ser levado a sério.
A pergunta não é se é difícil. É se estamos dispostos a continuar a fingir que tudo o que importa acontece dentro da Segunda Circular.
O crescimento desequilibrado não é só injusto, é uma ameaça estratégica. Concentrar talento, capital e inovação num só ponto do mapa para além de imoral e estupido é também enfraquecer o país. É ignorar o seu potencial produtivo. É abandonar parte do seu futuro. Não aceitemos isso.
Portugal precisa de uma nova narrativa. Uma que reconheça que o interior é território de criação, de inovação e de valor. Que não vê quem empreende longe da capital como um resistente, mas como um visionário.
A questão não está na dificuldade, mas na persistência com que ignoramos o potencial do interior de Portugal.
Tiago Braga